Vermelho: o prenúncio de uma viagem emotiva.
Título: Mother 3
Produtora: Nintendo / Brownie Brown / HAL Laboratory
Publicadora: Nintendo
Data de Lançamento: 2006.06.20 (Japão)
Trata-se de uma criação de Shigesato Itoi, um japonês pós-modernista e homem dos sete ofícios. Desenvolvida pelo estúdio Brownie Brown, é o último de três capítulo de uma espetacular saga que se insere dentro do género RPG, sendo composta por 3 títulos: "Mother", "Mother 2" e "Mother 3". O primeiro saiu em 1989 para a NES, o segundo em 1994 para a SNES e o terceiro em 2006 para o GBA. Apenas o Mother 2 saiu, legalmente, fora do Japão, sob o título de "Earthbound" e é considerado um clássico de culto.
Como fã do título da SNES, tinha grandes espectativas sobre o terceiro jogo, sobretudo devido a todos os contratempos e atrasos envolvidos na produção. Para terem uma ideia, o jogo esteve quase completo e pronto a sair na N64 em 2000, foi cancelado sabe-se lá porquê, em 2003 anunciam que afinal vão fazê-lo de novo para o GBA, e finalmente é lançado em 2006. Uma derrapagem de 10 anos. E eu ainda cheguei a ter esperanças que a Nintendo tivesse o bom senso de o lançar cá fora. Confesso que fui ingénuo.
Não me parece que esteja muito incomodado com isso...
Não lançou, obviamente, e o mundo ficou enraivecido. Por sorte, traduzir este tipo de pérolas é uma prática que já se está a estabelecer muito bem entre a comunidade de fãs, e por isso cedo se iniciou o projecto de traduzir a besta de texto que é "Mother 3". A 17 de Outubro de 2008, o patch com a tradução completa para inglês foi lançado.
História: O início do jogo cativou-me bastante, mas só depois de ter chegado ao quarto capítulo, que é quase um segundo início, como se tudo o que estivesse para trás fosse prólogo, é que me agarrei a fundo realmente. Para que se saiba, o jogo tem oito capítulos.
Hinawa e os seus dois filhos, Lucas e Claus, vão passar uns dias em casa do avô Alec. Flint, o pai da família, ficou em casa a cuidar das ovelhas. Tudo isto se situa na Nowhere Island, onde se estabeleceu uma pequena comunidade ligeiramente diferente daquilo que estamos habituados, onde não existe dinheiro, carros ou televisões, mas todos vivem felizes e em amizade com os animais. Aparentemente não têm contacto com outra civilização e o passado da própria ilha é um bocado desconhecido.
Quando Hinawa e os filhos regressam a casa, pelas montanhas, algo muito grave e perturbador acontece, e a pouco e pouco a vida de todos os que habitam a ilha muda por completo.
Por sorte temos um tradutor de Mooês.
A quantidade de reviravoltas que se segue fica para vocês descobrirem caso algum dia peguem neste jogo. Mas para que saibam com o que podem contar, imaginem um mundo construído pixel a pixel, com cores pastel saídas de um livro infantil, habitado pelas mais surreais criaturas e eventos, onde cada personagem possuí características bem definidas e novas falas regularmente, as referências à pop-culture e videojogos são mais que constantes e tudo é envolvido por uma visão pós-modernista, adulta, cómica e narrativamente brilhante. Tal como diz o slogan, trata-se de um jogo “Strange, Funny and Heartrending“.
Mais ou menos o mesmo que acontece em Mother 2, embora esse esteja um pouco mais marcado pelas inúmeras referências à cultura popular americana. Algo que, não tenho a certeza, talvez apenas tenha acontecido devido à localização do jogo para esse país. Não sei como era realmente na versão japonesa.
Momentos de encher o coração, até para escaravelhos do estrume.
Jogabilidade: Em termos de sistema de combate, é aí que reside, acho eu, o factor mais importante para decidir se poderão ou não gostar deste jogo. Trata-se de combates por turnos, algo habitual na grande maioria dos RPG japoneses, mas neste caso com vista na primeira pessoa. Isto, tanto quanto sei, não agrada a muita gente que está habituada a combates com vários ângulos de câmara e montes de efeitos mais “realistas”. E não duvido que o Itoi estivesse consciente desse facto pois a verdade é que nota-se uma tentativa de “melhorar”, mesmo que no Japão ainda haja muitos adeptos a este sistema. Os combates são bem mais rápidos do que era comum antigamente e contam também com várias particularidades que lhes dão alguma complexidade, sendo tudo isto um desenvolvimento daquilo que já havia em Mother 2.
Por exemplo, quando um inimigo ataca uma das nossas personagens, o HP não é subtraído instantaneamente como estamos habituados, mas sim progressivamente. Isto permite alguma estratégia nos combates. Por exemplo, se tivermos 100HP e o inimigo fizer um ataque de 110HP, o contador começa a descer até chegar aos 0HP. Mas se, durante esse tempo, utilizarmos alguma coisa que restabeleça, por exemplo, 30HP, o contador já só irá descer até aos 30HP em vez de 0HP. Por outro lado, se soubermos que com mais um ataque o inimigo morre, podemos deixar o contador ir descendo e atacar, pois assim que a batalha chegar ao fim também o contador pára e, basicamente, prevenimos a morte iminente e não gastámos nenhum item. Sem esquecer que, apesar de isto parecer tornar as coisas muito fáceis, é necessário agir com rapidez antes que o contador chegue ao fim. Não foram poucas as vezes em que me fiei demasiado na sorte e perdi o combate.
Há também outro pormenor, já presente desde o Mother 2, que é o facto de podermos fazer combos com os ataques se formos pressionando o botão A ao ritmo da música. Obviamente, isto implica que a música dos combates não seja sempre a mesma, havendo tanto ritmos simples de acompanhar como outros bem mais difíceis. Mas não é algo essencial, pode-se muito bem passar o jogo sem recorrer a isto, mas que dá muito jeito lá isso dá.
Quanto ao resto do sistema de combate, é tudo bastante típico. Atacar, utilizar items, PSI (pode entender-se como Magia), defender e fugir da batalha. Quero, no entanto, referir que aprecio bastante os itens do jogo. Não há cá Poções para ninguém, nem existe apenas um tipo específico de itens curativos. O que se encontra são alimentos variados ou outras coisas com nomes estranhos que restabelecem mais ou menos HP.
Cenários surreais compõe o mundo de Mother 3.
Ambiente: Isso enquadra-se no tipo de humor que está presente em todo o jogo, que está constantemente a remeter para a presença de um jogador, ou seja, nós próprios. Houve um momento que eu adorei e nunca me vou esquecer, e tenho muita pena de não ter tirado screenshot. Havia uma placa informativa que dizia apenas o seguinte: “Obrigado por teres partilhado um pouco do teu tempo para vir ler esta placa. Esta placa adora-te.” Este é um tipo de humor pelo qual eu facilmente me apaixono. Caso decidam jogar, nunca evitem falar com os animais, pois são os mais cómicos.
Outra placa muito informativa.
Em relação às personagens principais, as que controlamos, infelizmente não posso revelar quais são, pois considero isso um bocado spoiler. Vejam lá bem como este jogo é! E acho que não estou a exagerar, pois é mesmo algo que fica bastante incerto até, pelo menos, ao quarto capítulo do jogo.
Posso dizer, no entanto, que se controlam várias personagens em diferentes momentos do jogo. Por exemplo, se até determinado momento estivemos a acompanhar a história de acordo com a perspectiva de uma personagem, é possível que, mais tarde, controlemos outra personagem e vejamos os eventos sob essa perspectiva. Sei que hoje em dia isto já se vê muitas vezes, mas achei que aqui foi um recurso mesmo muito bem executado.
Para que saibam, o jogo é até relativamente curto, em comparação com outros RPGs mais famosos no ocidente. Concluí com 22 horas de jogo e há quem tenha chegado ao fim muito mais depressa. Mas o impressionante disso tudo é que está tão cheio de pormenores e de diversidade que parece uma aventura muito mais longa. Mas quando terminei fiquei com vontade de mais, sem dúvida.
O aspecto visual é também bastante semelhante ao segundo capítulo da saga, mas com o interior das casas menos exagerado no tamanho e a perspectiva mais normal. É, no entanto, um mimo para qualquer fã de pixéis e 2D, como eu. Do melhor que já vi.
Uma habitação no mínimo fabulosa.
O aspecto visual é também bastante semelhante ao segundo capítulo da saga, mas com o interior das casas menos exagerado no tamanho e a perspectiva mais normal. É, no entanto, um mimo para qualquer fã de pixéis e 2D, como eu. Do melhor que já vi.
Tendo lido tudo o que escrevi, ficam com a ideia que é demasiado japonês? Parece-vos algo incapaz de ter adeptos cá fora? Talvez só possam responder depois de jogar, mas acho que consegui mostrar que, na verdade, não passa de um videojogo que se encara como tal e que não tem nacionalidade. É, até, bastante multi-cultural e apropriado para uma geração habituada à globalização, com temas tão universais como a família ou o maldade que pode advir do excesso de poder. Posto isto, não vejo porque é que o mercado ocidental não há de estar disposto a experimentar este tipo de videojogos. Talvez a Nintendo nos saiba explicar. Ou talvez não.
Wikipedia (Inglês)
Site do patch de tradução (Inglês)
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